Início dos anos 70. Uma amiga – que depois virou namorada, me convidou pro niver de uma amiga dela. Agora tou confuso quem fazia aniversário, não lembro se Dulce ou Patricia, acho que era Dulce. Festa família, na casa da aniversariante, bolo e salgadinhos de mãe.
Eu, por volta dos quinze, sem muita intimidade nem com os convidados nem com o wiskie, peguei uma coca e fiquei perambulando pela sala. Até que dei de cara com uma estante cheeeiiiinha de livros sobre propaganda. O paraíso.
Eu, por volta dos quinze, começando a pensar o que fazer na vida, mas já com uma inclinação para a propaganda, entortei meu pescoço pra esquerda, pra direita (não sei porquê os nomes na lombada dos livros não são escritos todos para o mesmo lado) e fui lendo os títulos um por um. Primeiro na prateleira de baixo e depois subindo, da esquerda pra direita. Quando já estava em pé senti uma baforada de cachimbo na minha nuca e uma voz grave dizendo: “pelo jeito você gosta de propaganda.”
Quando me virei dei de cara com ele. Luis Celso de Piratininga. Alto, imponente, cachimbo no canto da boca, copo de wiskie na mão. Só consegui balbuciar “desculpe, tava só olhando”. “Não, não – continuou ele – perguntei se você gosta de propaganda.”
Bem, pra encurtar a história, passei quase toda a festa tomando wiskie com bastante água, e falando sobre propaganda com o Pira. Saí de lá com um convite para visitá-lo e conhecer a Adag, primeira agência onde pus meus pés.
Corta pra meados dos anos 80. Eu, já formado em Publicidade e Propaganda, já redator, fui chamado pelo Geraldo, então diretor de criação da Adag, para compor uma dupla na agência. O que são as coincidên…digo, sincronicidades. Ali conheci e aprendi muito do que sei com quatro figuras impagáveis. Pira, Jeferson, Eurico e Plinio.
Entre outra contas, me tocou atender a Caixa. Consequentemente, ia pra Brasília algumas vezes apresentar as campanhas. Numa dessas, com o Pira, terminamos a apresentação e pegamos o elevador pra descer. Foi aí que eu conheci o melhor lado do Pira. O Pira brincalhão, o Pira moleque. Um Pira, que talvez só os netos dele tenham conhecido a fundo, porque é preciso ser criança para compartilhar esse lado. Não, com filho não, tem de ser com neto, porque com filho a gente precisa manter a autoridade.
Naquela época – até quando durou não sei – o Pira colecionava crachás. Tinha uma parede cheia atrás da mesa dele. Crachás mesmo, desses de empresa, que a gente usa pra entrar e sair. Um pouco antes de chegar na portaria, ele me chamou e sussurrou: “Olha, eu preciso que você me ajude a levar um destes crachás. Você sai sozinho e tenta dar uma enrolada no porteiro, sei lá, inventa alguma coisa. Se você conseguir, me faz um sinal depois de passar a catraca que aí eu devolvo o meu. Caso contrário, eu vou tentar sair com o meu.”
Fiquei na Adag cerca de dois anos, antes de ir pra FCB. Depois só nos encontramos socialmente. Pena, queria ter desfrutado mais do Pira. Ainda bem que estou de volta, e ele deixou o Celso com a gente.
José M. Cascão